Scorsese, ao longo de sua carreira, sempre gostou de trabalhar com o tema da degradação do ser humano. Fez isso através da solidão em Taxi Driver, pelo mundo do boxe em Touro Indomável e com o da máfia em Bons Companheiros e Cassino. Nesses quatro filmes também temos a sua principal característica: a violência. Em O Aviador, Scorsese retoma ao seu clássico rise and fall storie, da auto-degradação de um homem em função de suas loucuras, neuroses, ambições e, enfim, de um homem que queria tudo. Mas ao contrário da maioria de suas obras, a história não se passa nas ruas ultra-realistas e violentas de Nova York, mas sim em Los Angeles, em meio a todo glamour Hollywoodiano.
O longa começa com uma rápida cena de Howard Hughes criança, tomando banho, enquanto sua mãe explica o porquê de estar em quarentena. Pode até parecer meio exagero, já que o rapaz se torna um hiper mega neurótico obssessivo com questões de higiene e doenças, ao ponto de lavar sempre as mãos ao cumprimentar um estranho, e sempre com seu próprio sabonete. A primeira parte é talvez uma das mais divertidas que Scorsese já filmou, somos apresentados ao excêntrico protagonista de maneira bem descontraída, quando o mesmo quer usar 26 câmeras para filmar a cena do seu filme Hells Angels, até então o mais caro da história do cinema.
Como muitos já disseram, DiCaprio faz aqui a melhor interpretação de sua carreira. O astro de Titanic deixa de lado seus clichês de herói dos filmes de romance e interpreta um ser humano de verdade. Mas infelizmente não consegui entender todos os prêmios e elogios para Cate Blanchett, fazendo a famosa Katharine Hepburn, que extrapola em vários momentos, não somente na cena do golf - que chega a ser até um pouco constrangedora - mas em outras ocasiões em que mais parece estar interpretando Hepburn atuando. Há momentos em que ela acerta, como na belíssima cena em que Hughes a leva de avião por Los Angeles a noite. Já Kate Beckinsale até que não está mal, fazendo uma personagem mais discreta consegue dar realismo ao seu papel de Ava Gardner, mesmo com certos escorregões na parte final.
Os 166 minutos de duração não se tornam entendiantes talvez pelo fato de tudo ser esteticamente perfeito, desde a representação minunciosa da época até as espetaculares cenas de vôo, e com uma montagem que consegue manter um rítimo bem interessante, que mesmo com o grande número de acontecimentos e informações da vida do personagem principal, não fica confuso ou cansativo. O que também já é uma característica de Martin Scorsese, de sempre tornar seus protagonistas pessoas interessantes, desde o psicótico Travis Bickle, o violento Jake LaMota, o paranóico Paul Hackett e vários outros. E dá para notar uma certa semelhança de Hughes com esses personagens. O seu "desprezo" pela sociedade, de querer se deslocar dela, a ambiação de conseguir o que quer e mesmo que tenha que passar por cima de tudo. Com isso vemos que Howard Hughes é um típico personagem Scorsesiano.
Vi muitas pessoas dizendo estar com saudade do Scorsese em filmes "menores". Também confesso que adoraria vê-lo dirigir algo no estilo de Taxi Driver ou Depois de Horas. Mas mesmo que O Aviador não seja um filme em que pegou desde o início (ele foi chamado para dirigí-lo), temos no final das contas uma obra com sua marca registrada, na qual pode ser vista a emoção e sinceridade do diretor em cada cena, e não apenas um filme feito para Oscar. Não chega a ser uma obra-prima, está bem abaixo de seus cinco melhores, mas é um belo filme e com um final que, arrisco dizer, é uma das melhores cenas filmadas por Scorsese nos últimos dez anos. Que ao contrário de um Cassino, por exemplo, em que o declínio de seus personagens são mostrados através de golpes com tacos de baseball, corpos enterrados e carros explodindo, aqui vemos o futuro sombrio de Hughes de uma maneira mais sutil, no close genial no rosto triste de DiCaprio durante o "the way of the future".