5/17/2005

Eterno Amor



Quem será que veio primeiro: Audrey Tautou fazendo carinha de pobre menina sonhadora inocente ou diretores chamando-a para fazer pobres menininhas sonhadoras inocentes ? Pode parecer bobagem, mas tenho essa curiosidade. Pois ou ela só sabe fazer uma coisa ou então os diretores são malvadões e só a chamam para interpretar a maldita mesma personagem. Pegue "Bem me quer, mal me quer" ou "Amélie" (dentre outros), e veja que, podemos estar vendo a mesma personagem vivendo diferentes histórias. E como em todos ela é uma sonhadora, beirando (ou chegando) ao lunatísmo, a conclusão inevitável é que, sim, trata-se da mesma personagem. Sem remodelagens ou sútis diferenças na caracterização. É ela. De novo, aquela menina chata - que busca com todas as caras e bocas possíveis, abusando da persuação, parecer simpática a todo custo; seu sorriso boboca, implora pelo apelo de encanto.

Só que se em outros filmes Tautou era a moça simples dentro da simplicidade de uma história e de uma colocação estética (apesar de "Amélie" ter todo um cuidado especial, o ambiente em si traz uma aparência de humildade, mundo moderno normal), aqui em "Eterno Amor" aquela personagem é colocado dentro de algo grandioso, de proporções épicas. E em causa disso, o filme divide-se em duas partes: uma de serenidade, de tranquilidade, com a brisa sobre o rosto batendo suavemente, com a gaivota voando com um semblante de liberdade e leveza, com o mar fazendo um som para aliviar o espírito;- já na outra parte, onde vai colocando-se de forma desengonçada e bagunçada os acontecimentos da guerra (as aventuras cruéis e brutais que o noivo da moça atravessa), passando de forma bela, com aquelas tomadas lindas, com aquelas explosões magníficas, visualmente deslumbrantes, ao contraponto da angústia e horror. Ou seja, de um lado temos o belo. Do outro, a guerra, o horror, o terror, o medo.

E assim vai o filme. Com a protagonista fazendo aquela carinha de sonhadora a todo instante, a todo custo mostrando que sua esperança é maior que tudo. Que sua vida precisa que aquela peça seja resolvida, que o enigma sobre a, ainda, existência de seu grande amor tenha uma resolução para então ela descobrir qual o rumo que sua vida tomará. E Jean-Pierre Jeunet é um sujeito criativo, tem grandes idéias na cabeça - insere, sabiamente, personagens na história, que vão acrescentando elementos fundamentais para o desenrolar do filme; e, sem gratuidade barata, consegue arranjar para tais personagens, cenas realmente impressionantes (uma cena em particular me encantou, que é a do tiro no teto de vidro). Só que, o que ele tem de criativo (o quanto sua imaginação consegue ir longe), ele tem de mal narrador (o quanto ele consegue fazer com que toda sua criatividade seja mal colocada quando se junta todos seus elementos, ficando tudo bem confuso e embaralhado demais). São muitos fragmentos da história correta, e, quando chega a hora de fazer as revelações, o próprio diretor parece confuso e simplifica ao máximo todos os pequenos truques de enigmas que utilizou.

Falar que "Eterno Amor" tem um visual lindíssimo é chover no molhado. Isso todo mundo sabe, o trailer já revelava isso - e, convenhamos, isso já não é algo que esteja valendo assim tantos pontos. Pelo menos, quando é nesse estilo que o filme utiliza. Parece uma convencionalidade já. Qualquer filme americano épico com orçamento pomposo atinge tal grau de perfeição visual facilmente. E falando em filme americano, se fala que "Eterno Amor" não foi selecionado para Cannes porque parece "americano demais" - e, curiosamente, essa afirmação nunca pareceu tão verdadeira. A embalagem é toda linda, e o conteúdo, é todo vazio, artificial e quer parecer esperto e complexo demais. Complexo no filme, só analisar e entender porque tanta bagunça.

5.5


Para assistir de todo jeito: KUNG FU HUSTLE - Bom, eu não comentei Kung fu hustle da forma que o filme merece no post passado. Vou tentar corrigir isso parcialmente agora, pois, deixar o melhor filme do ano até agora passar assim despercibido é sinal de covardia minha, com aquele receio de escrever muito para chegar nem perto de o quanto é o filme (pois é, esse é um grande mal de quem não escreve lá muito bem). E não vou fazer um comentário longo, vou ser o mais simples possível. Já vi o filme nada mais e nada menos do que três vezes (agora só vou ver de novo quando passar no cinema aqui), e, em todas elas, ri da mesma forma. O filme é uma grande mistura. É um duelo de gangues. Na verdade, existe uma gangue dominadora, que apenas não dita as regras em um vilarejo (cheio de pessoas esquisitas e engraçadas - algo como a vila do Chaves, só que com mais moradores), que resiste utilizando o kung-fu. O protagonista do filme é um sujeito que carrega uma história de vida que fez com que ele sonhasse em fazer parte dessa tal gangue. E essa é a história do filme, não é um fiapo de história como pode parecer, é uma bela história. Uma mistureba de várias coisas que vão sendo identificadas. É curtir, rir muito - tem piadas bobas à lá Chaves, e, são as melhores.