5/19/2005

Ninguém pode saber



Akira. A imagem do garoto precoce. 12 pequenos anos incompatíveis com a responsabilidade que lhe é depositada: administrar a renda da família, cuidar dos irmãos, e impedir que os responsáveis pelo condomínio em que mora descuram que várias crianças moram com ele. Só que não é apenas com isso que ele precisa se preocupar (diga-se, foi abandonado pela mãe, ou seja, como funciona a cabeça de uma criança nessa condição?). Ele é um garoto ainda não maduro, e precisa das coisas que todo garoto de sua idade gosta - e nisso, incluí-se o contato com outras crianças, fundamentalmente. E a maioria das crianças iniciam seus contatos com outras pessoas quando vão a escola - porém, nessa família em degradação constante, não existe condição de frequentar uma escola (e isso é algo que mexe bastante com a cabeça do garoto).

Portanto, no caminho de Akira, várias pedras irão aparecer e em muitas ele irá tropeçar, em função de sua imaturidade e da responsabilidade que ainda não adquiriu. A princípio, parece que Akira é um garoto já mais desenvolvido para a idade - porém, o mundo lhe oferece muitas coisas, e pelo instinto natural, ele sente falta. E essa falta acaba mexendo demais com sua cabeça e em atos inconseqüentes acaba jogando sua pequena e desestruturada família em um buraco que parece não ter mais fundo. E de forma convincente, o diretor Hirokazu Koreeda vai fazendo com que esse processo não seja súbito;- as coisas ocorrem gradativamente, vai faltando dinheiro para uma coisa aqui, outra ali, até que, o estado fica deprimente - triste, emocionalmente chocante. Só que, não é só dinheiro que falta para os irmãos; falta também, aquela atenção e aquele amor de mãe - que não estabelece contato com eles, e isso traz magoas. Magoas que podem ser percebidas nas vozes, no comportamento, na forma com que falam sobre a mãe.

Mas a história não é só de Akira. Ele é a peça chave. Mas dentro deste mundo, temos outras óticas para serem analisadas. Pois, o que Akira não tem - seus irmãos também não possuem, com um outro detalhe ainda mais relevante: eles são invisíveis, precisam ser invisíveis, para ter onde viver e morar. Chegar escondidos em malas, são pesos carregados. Chegam, e a missão deles (dada pela mãe) é que não saiam, não falem alto, ou seja, não mostrem índicios de que existem. A vida deles é ali, aquilo, trancafiados dentro de um apê minúsculo. A liberdade para eles é apenas um sonho, um sonho difícil de ser realizado - pelo menos, dentro de um período. E, falando em sonho - o que dizer da irmã mais velha ? É a parte de sonho do filme, de perspectiva, de motivação - que acaba em ruínas, em ocasião da instabilidade. Não a sua instabilidade (já que ela é a mais calculada e centrada), mas sim, da circunstância que atravessa. Seu pequeno piano, é o refúgio de sua dor e tristeza;- e, por não poder sair (e pela condição financeira), não tem como atingir o objetivo que visa.

Ninguém pode saber não é um filme fácil. Não digo com relação a ritmo ou complexidade, já que apesar de lento e da abordagem social profunda, o filme flui muito bem. Só que a tristeza que predomina durante o filme, com sorrisos lindos trajados de roupas sujas e rasgadas, ferem o coração. Atingem a dignidade daquelas pessoas. E a comoção acontece em uma escala maior, por essa ser uma história tirada de algo real (os letreiros iniciais já deixam claro que os personagens e as situações são fictícias, só que a premissa é inspirado em um acontecimento verídico), e que funciona de forma universal. O país é o Japão, só que a calamidade não é lá - o buraco é mais embaixo, e o mundo está em destroços. A sociedade está destroçada, arranhada, prejudicada por injustiças e diferenças, desigualdade. Essa mesma história pode acontecer em tantos lugares, só que culturalmente, os acontecimentos podem acontecer de forma desigual - para melhor, ou então, acredite, para pior.

P.S. - uma observação a ser feita é que o diretor Hirokazu Koreeda é o mesmo que fez um filme bem chato chamado "Depois da Vida". A evolução dele como narrador é impressionante, e o cuidado estético que tem nessa "Ninguém pode saber" é expressivamente maior do que esse outro, que peca não só pela precariedade da produção, como também, com todos os problemas em desenvolver sua premissa, tornando-se profundamente irritante e soa como um desperdício irreparável. Com uma progressão notável, em "Ninguém pode saber" ele usa bem sua sutileza e sensibilidade - e o resultado, acabou sendo esse grande filme. Completamente contrário ao seu antecessor.

Nota - 8.0


... ninguém pode saber é imperdível, em compensação CAMISA-DE-FORÇA (The Jacket) ... - é um filmeco pra lá de dispensável que entra para a mesma turma de Efeito Borboleta e Primer, sendo mais um representante do tipinho filme-espertão-que-brinca-com-o-fato-de-viajar-no-tempo, claro, bancando o complexo ao quadrado. O interessante é que são três filmes quase igualmente ruins (na verdade, esse "The Jacket" é o menos ruim), e bem diferentes em suas partes estéticas ("Efeito" é típico hollywood, "Primer" é o tradicionalíssimo sundance cult indie americano, e "Jacket" aposta na parte de suspense moderno). O filme em breve deve chegar aos cinemas brasileiros com boa distribuição, só que, dúvido muito que tenha um retorno satisfatório - pois, acho difícil encontrar alguém que se encaixe bem para gostar de algo tão visualmente histérico e irritante, com um conteúdo de plástico tão broxante e limitado.