
Tinha tudo para dar completamente errado, porém acabou tendo parcelas bastante aproveitáveis dentro de toda sua fragmentação quase episódica que chega a irritar profundamente. Soa de ponta à ponta batido. São coisas ultrapassadas da criação dos personagens (um protagonista sabe-tudo, uma moça para encher lingüiça, um maluco, uns fortões, um arrogante, um cara que carrega foto da namorada, enfim), até o desenrolar do roteiro (francamente, as coisas utilizadas são manjadíssimas e colocadas de forma esquemática;- diferenças pessoas, atritos de idéias, um bando de Nômade para criar problema). Só que é bem realizado. É conscientemente realizado para impressionar em alguns momentos, e felizmente, consegue obter sucesso.
Não se pode falar tanto dos efeitos especiais, pois eles não aparecem tanto quanto parecia que iriam surgir (eles são basicamente utilizados para mostrar de forma espetacular e enrolada o acidente de avião que deixa os tripulantes da nave preso em meio ao deserto sem qualquer contato e ficam com a vida ao soar do gongo). Mas quando utilizados (tespestade de areia), são extremamente eficientes e causam um impacto visual deslumbrante como proposto (o filme aproveita bem esse momento pois é a única parte onde pode criar algo que cause uma boa imagem para apreciadores de filmes de ação). De resto, os efeitos se escondem para dar espaço para uma certa aventura calculada, digna de qualquer seriado de ação/aventura que aparece por aí.
O roteiro limita-se em criar quase nada. Sim, durante o filme pouca coisa acontece e poucos conflitos surgem (e os que surgem são pra lá de batidos e causam até um constrangimento mútuo entre espectador e personagem, como por exemplo, a cena em que existe uma sucessão de "por favor"). Nesse caso caberia ao filme aprofundar-se um pouco nas relações e nos comportamentos dos personagens, só que claramente isso é descartado pois não é esse tipo de público que ele quer atingir. Sobra então para o roteiro, divertir-se na criação do avião e na corrida contra o tempo (no caso, contra duas coisas: a água escassa e o bando de nômade que retornará), até chegar ao lógico e óbvio final triunfante.
Aonde diabos estão os pontos fortes do filme ? Os personagens são ruins, o roteiro é ruim, a direção não acrescenta em nada. Aonde ? Diria suas coisas. No carisma da tripulação, que são personagens batidos, e por isso mesmo, acabam ganhando facilmente certa familiaridade - e na atuação e presença de Dennis Quaid (não sou fã dele e não digo que seja uma atuação de Oscar), perfeitamente à vontade no personagem que lhe coube irretocavelmente. Tá aí o que uma boa sessão-da-tarde precisa, portanto, passatempo de entretenimento raso e simples.
NoTa - 5
... se o vôo da fênix não é uma porcaria, o mesmo não pode se dizer de HUCKABEES: A VIDA É UMA COMÉDIA (I earth Huckabees)... que é uma comédia do diretor do ótimo Três Reis. Uma infeliz comédia, diga-se. Dizer que é pretensioso é superestimá-lo. Não é pretensioso, é tão intelectualizado, tão irônico, seu sarcásmo é tão sentido, que é tudo uma grande falsidade. Os defensores terão muito pelo em ovo para defender aí, pois a abordagem e a forma com que é feito, é possível fazer leituras pra lá de incomuns. Dizem que é uma comédia que tira sarro de filmes inteligentes sobre existencialismo, só que a mim pareceu uma comédia tola, frustrada por não conseguir abordar tal assunto com capacidade - e então, vira um falatório à lá Contrèfield. Terrível (o filme, não a contrèfield).